quinta-feira, 25 de junho de 2009


AOS ANÔNIMOS


A idéia mais comum quando imaginamos uma pessoa bem sucedida na vida é aquela que pratica algo e lucra financeiramente com isso. Mas suponhamos que você ganhe seu quinhão de sustento como bancário e nas horas vagas seja pintor. Ninguém compra as suas telas, mas o prazer é demasiado quando o vermelho mistura com o amarelo e vira laranja. Quantas vezes “desplugamos” de aptidões ou apenas hobbies pelo fato de não vislumbrar perspectivas estupendas de futuro naquilo. Porque você sempre quis ser pintor, mas é bancário. Sempre quis ser bailarino, mas trabalha na bolsa de valores. Escritor, mas é faxineiro. Enchemos a nossa vida de justificativas pragmáticas, porque aquilo de que gostamos não é promissor, ou pelo menos, aparentemente. Dessa forma, não vemos pra que fazê-lo. Nossa cabeça funciona como uma caixa registradora: “deixemos o prazer para lá, ele não dá dinheiro nem status”! Mas tem certos acordos que servem a nós e ninguém mais. O pintor é aquele que pinta, simples assim! Não precisaria de nenhum mérito, o prazer está na prática e pronto. Ninguém impediu Picasso ou Van Gogh. Um foi bem sucedido no mundo: fama, dinheiro no bolso e mulheres as pencas. O outro... ficou louco... e sem orelha! Mas o que nunca se disse é que o bálsamo da loucura de Van Gogh era a pintura, e não a causa da sua vida desordenada. Eram os momentos mais iluminados dele, um alívio no caos da realidade. Não sucumbia justamente porque praticava sua arte, por mais desencorajado que fosse, essa era uma necessidade vital que tinha: de pintar, de retratar aquilo que o coração agonizava. E mesmo não tendo retorno na vida prática, esse gênio de vanguarda, acessou a flama da inspiração e quando o fazia era feliz. Então, meu caro, a vida é uma aventura, não é uma equação lógica de déficits e superávits. Nem tudo é prestígio, sabe? Você deve ter a coragem de nunca renunciar as coisas que gosta por causa dessa ótica capitalista xiita de que o mundo anda padecendo, sempre com o objetivo prostituto de que tudo só vale se for para alcançar fortuna ou fama. Quer ser bailarina? Arrasta os móveis da sala aos sábados, aumenta o som e dance como se estivesse na companhia Bolshoi. Talvez um olheiro te descubra, talvez não, mas será bom de ambas as formas, não é? Entendi isso com muito sacrifício, sobre a escrita. Não tinha pra que escrever se ia mesmo engavetar depois, mas a satisfação era tamanha que ia além do meu ego e de sofrer passivamente achando que o anonimato era sinônimo de fracassar. Mas o fato inegável é que encontrava nas folhas brancas uma grande paz, minha catarse de sobrevivência. Percebi que era lucrativo pra mim, ponto final. Arrumei um emprego pra poder pagar as contas e comprar os livros que gostava e, sobretudo, parei de sofrer com a megalomania do premio Pulitzer ou Nobel. Porque toda atriz precisa ser Global, porque todo escritor precisa ser Nobel e porque todo cantor precisa ir onde o povo está? Acho que esse entendimento torna nobre qualquer coisa que se faça porque se faz por paixão e não por reconhecimento alheio. O que é verdadeiro é sempre uma semente que cresce, mas deve crescer espontaneamente, sem obsessão. E vai frutificar naturalmente, em muitos aspectos que não apenas ególatras. Quantos cantores de agora eram antes cantores de chuveiro e o fígaro-fígaro-fígaro era a desgraça dos vizinhos? A tal da Susan Boyle, descoberta aos 47 anos, cantava na igreja do pequeno vilarejo que morava. Certamente não tinha grandes pretensões, nem sequer desconfiava que seria esse fenômeno de mídia quando estava cantando, apenas amava cantar, vivia melhor se cantasse. Não se pode manipular a sorte, isso se chama “estrela”. Mas se acaso você não virar biografia ou filme, significa que deva renunciar seus prazeres? Antes de tudo, divirta-se, o resto é mera conseqüência. Por isso eu penso que os grandes sonhadores como Galileu ou Einstein foram antes de tudo leais com a prática dos seus deleites. E se passassem a vida inteira no anonimato, não iriam deixar de se deslumbrar com as estrelas. Ficaram na história porque foram uma descoberta da Humanidade e não porque eram marqueteiros. Einstein nunca achou que sua língua de fora seria pop. Anônimos do mundo, vamos nos divertir!

A COCA- COLA VIROU REFRESCO


A juventude foi seqüestrada pelo computador! Pode parecer um bom passatempo pra você, pode parecer conveniente para os pais, que iludem estar poupando os filhos da exposição nas ruas, da violência e loucura cada vez mais crescente. Pode, inclusive, parecer que o computador seja o lugar mais seguro de estar. Aos poucos estamos sabendo que não é, que dá acessos a lugares e pessoas que podem ser mal intencionadas. Mas não é nem isso que quero abordar, não falarei desses extremos de pedofilia, psicopatia, e nenhuma outra insana “ia”. Falarei apenas de uma coisa: onde você coloca o seu tempo? Onde você deixa que as horas escorram como se não fossem preciosas demais? Será que mais uma vez não será essa a geração da AÇÃO que tanto esperamos que nos salve, que nos recicle dos antigos paradigmas? Pasmar na frente do computador é coisa de inação, de paralisia, de engessamento de criatividade. Relutei, mas sou obrigada a declarar: a tecnologia, tão ovacionada, careteou o mundo! Eu sei, parece um contrasenso falar que esse glamour high tech é coisa mofada, mas o que percebo é que quanto mais veloz o seu computador se torna, mais devagar você fica. Quando o computador era movido “a manivela”, a gente desencanava logo dele e ia pedalar. Leva o falso nome de Avanço ou Progresso da Humanidade, mas de “humano” só vem perdendo. Tudo complô.
A era digital está acabando com as experiências pessoais. Vamos viajar... pelo Google Earth...vamos namorar na frente da internet, a meia luz de um monitor...hum, que romântico...vamos jogar futebol e engordar, soquear um adversário numa luta e não suar, bastar mexer o joystick que você conseguirá se movimentar feito um Guga numa partida de Tênis. Não parece um futuro aterrorizante perder as referências da Realidade? Vamos trair pelo chats de encontro. Hey, que equívoco, isso é exercitar a imaginação?
Sim, devemos ao menos admitir, que caminhamos para uma geração não-criativa. Evidentemente que não faço uma apologia a Pré-história, mas como já disse Victor Hugo (aí está uma pesquisa válida no Google) chega uma hora em que você tem que dizer “quem é o dono de quem”.
E sabe onde vai dar isso? Na escassez do novo, na falta de algo original. Os séculos passados foram bombardeados de gênios da Música e da Arte, e gênios são CRIADORES. Incomuns, eles bebiam em fontes frescas de conhecimento experimental, empirismo, recheado de sabores e sensações que o instigassem.
Nossa década, me parece, não produz nada novo, estupendo, desconcertantemente inusitado. Ficamos regurgitando os anos 60, 70 e 80.. Isso é como assistir o Especial do Roberto Carlos no final do ano. Ou como uma piada contada dez vezes, e já na quinta não tem mais graça. Ou como um plágio na Arte não revela nadica de nada. Enquanto você copia, nada se cria, não é mesmo? E quando se cria, leva o rótulo de “Cult” e as grandes massas não suportam! Estamos perdidos?
Engraçado é que se você não é absolutamente cibernético é acusado de ser retrógrado, atrasado, careta, mas eu acho justo o contrário. Acho covarde se esconder atrás de um monitor. Que o primeiro amor de um pré-adolescente seja uma heroína peituda que manuseia mil armas e é faixa preta em karatê. E os amores febris, corpóreos e belos e a brisa, a fragrância das flores e a água fria do mar?
A vida é um potencial latente em nós, basta que tenhamos uma existência autêntica. Vista-se agora, saia para caminhar na rua e pegar vento nos cabelos. Desentoca!