
Sou réu confessa da minha teimosia, quando declaro que essa coluna ainda não cedeu às novas normas da Revisão Ortográfica. Ainda não consegui sacrificar meus acentos e hífens e dispensá-los feito estorvo ou quinquilharia desnecessária. Restou um amor ou apego, o mesmo dos meus bisavós aos PHs de “photos” e “pharmácia”. A mim parece que a Língua Portuguesa está ressecando. De perene a murcha flor do Lácio!
Os Lingüistas defenderão a simplicidade da comunicação da escrita e é até um bom argumento! Talvez seja mesmo pirraça minha. Mas não é só a “lipoaspiração” dos excessos da escrita que me incomoda. Temo o que acontece no âmbito do “conteúdo”. Nosso vocabulário ressecou igualmente, anda raso.
Aí pergunto: Será que as palavras são apenas um acessório funcional na Vida? Ou também uma forma de expressão máxima, manifestação e celebração? Aquela que consegue dizer melhor aquilo que o olhar sente deleite? Desde quando o mundo tornou-se tão direto? Simplificamos mesmo ou será que apenas substituímos por outras palavras mais técnicas e metálicas? Cada vez menos se fala de nuvem, de pedra e de flor... Isso sim seria simplicidade aceitável!
Final do ano, por fixação antiga, adquiri um Ilíada, de Homero, com bela capa dura e brochuras em vermelho. Achei árido de ler e fiquei perdida num planeta arcaico demais. Em contrapartida, ainda esses dias, um livro me provocava na estante, parecia até estar desalinhado dos outros, se oferecendo. Era Machado de Assis. Com um leve rebuscamento, pode desnortear no princípio, mas que prazer, que prazer quando já no terceiro capítulo se desembesta a nossa economia e secura de palavras e nos enrolamos na Língua Portuguesa, ou ela em nós, feito jibóia sedutora. Brás cubas, personagem célebre de Machado, diz de Virgília, sua amante:
“Era o travesseiro do meu espírito, um travesseiro mole, tépido, aromático, enfronhado em cambraia e bruxelas”.
E agora você escuta ou propaga a elaboradíssima frase “gata/o, você é dez!”. Ou engasga pra dizer um simples “eu te amo”, seja pra quem for.
Os escusos vão querer culpar a Educação fraca, mas ninguém melhor que o próprio Machado de Assis, sendo ele autodidata, para balançar essa crença deveras comodista.
Portanto, leia e veja o mundo melhor!
Não tema se abrir em mais cores, sabores, em novas sensações e conseqüentemente em mais palavras.
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